Nem todo mundo vai jogar GTA V

O GTA V é um jogo incrível, mas muita gente não vai jogá-lo. Não se surpreenda: motivos não faltam e todos são muito respeitáveis. Vamos tentar entendê-los.

Grand Theft Auto V bateu vários recordes. De acordo com o site do Guiness World Records, foram seis recordes mundiais, se convertendo em um dos lançamentos de mais sucesso de todos os tempos.

Mas há pessoas que não comprarão o jogo. Interessado nesses motivos, comecei a pensar e encontrei argumentos de todos os tipos. A maioria deles pode ser resumida em quatro grandes reclamações. Vejamos quais são elas.

“Tem que dedicar muito tempo ao GTA V”

O GTA popularizou os sandbox, os jogos onde é possível fazer, literalmente, de tudo com liberdade absoluta. É uma característica definidora da saga que o desenvolvimento da história seja fragmentado, e agora, com três protagonistas, ela é levada ao limite. É parte do atrativo de GTA, mas ao mesmo tempo afasta muitos jogadores. O motivo? A quantidade de tempo que tem que ser dedicada ao jogo.

Títulos como The Last of Us ou Max Payne 3, se desenvolveram de forma linear, ganhando ritmo como um filme. Em GTA V, como no resto dos títulos da saga, isso não acontece. Para alguns há tanta liberdade que a intensidade da história se dilui ou perde a importância. Uma missão pode acabar com um sentido de tensão e máxima urgência, mas a continuação pode chegar semanas depois.

Se você se viciar no jogo, já pode dizer adeus à sua vida social. Comentavam alguns no Twitter

A Rockstar cria mundos complexos que podem ser experimentados de muitas formas, e que podem agradar pessoas muito diferentes. Há quem se divirta com os tiroteios e quem fique embasbacado pelas paisagens. Só que tanta variedade pode assustar o jogador que tem pouco tempo disponível ou que queira tudo de bandeja.

Resumindo: o roteiro de GTA V é o que acontece com você enquanto estiver ocupado com outras coisas (como roubar carros ou bancos).

“GTA V é um jogo machista”

A análise de GameSpot recebeu um montão de críticas por duas palavras que estão no campo dos “contras”: “profundamente misógino”. O tratamento que a mulher recebe em GTA V é marginal e ofensivo. Não é nenhuma surpresa que os roteiristas de Rockstar gostem das histórias masculinas. O GTA V é machista e tem plena consciência disso.

Segundo Dan Houser, o “conceito de masculinidade é peça chave nessa história”. Isso se entende perfeitamente ao comprovar que os três protagonistas de GTA V são três caricaturas de machos problemáticos. Mas não acho que isso baste para tranquilizar quem sente falta de personagens femininos relevantes no jogo.

É fácil entender porque muitas mulheres não se sentirão atraídas pela perspectiva de jogar GTA V: não é a sua história. Por outro lado, existem jogos que permitem escolher o sexo do protagonista sem afetar muito à história: Elder Scrolls e Mass Effect são dois exemplos que oferecem uma escolha que o GTA nos negou.

“A violência de GTA V é excessiva”

Há pessoas que se sentem incomodadas diante de um jogo com muito conteúdo violento, principalmente se ele não pode ser evitado. E não tem maneira de zerar o GTA sem matar. Não é possível fazer um pacifist run, como são chamadas as partidas completadas sem matar ninguém.

Em uma das missões, Trevor pode escolher entre quatro técnicas de tortura (fonte)

Uma das missões de GTA V foi duramente criticada pelo seu conteúdo violento e inevitável. “É apenas um vídeo game”, dizem alguns; mas diferentemente de um livro ou de um filme, um jogo nos põe na pele dos protagonistas como nunca antes havia ocorrido. Nos tornamos cúmplices e executores da trama.

É irônico que em um título como GTA, que se gaba da liberdade que dá ao jogador, haja situações nas quais simplesmente não há poder de escolha. Compare-o com Red Dead Redemption, que tem um sistema de honra similar ao de jogos como Mass Effect ou Fallout 3, onde a bondade e a maldade têm suas consequências. O ato de rebeldia pacifista? Jogar o Grand Theft Auto V sem matar ninguém.

“GTA V é mais do mesmo”

Se você compra um GTA, já sabe o que te espera: roubar carros, dirigi-los sem respeitar as normas de trânsito e gastar mais munição do que foi usada pelos EUA na invasão do Iraque. Há ainda os minijogos, as corridas de carros, os desafios acrobáticos e dezenas de coisas mais. Em último lugar está a trama, se é que alguém se importa com ela.

Uma primeira estimativa diz que o jogo custou cerca de 850 milhões de reais

Para muitas pessoas com quem eu troquei impressões, a trama de GTA V é o de menos. Para a maioria dos fãs o atrativo do jogo não reside na sua história, e sim no cenário: um mapa enorme e detalhado, veículos diversos e prontos para personalizar, uma ampla seleção de armas e ruas que transbordam de vida.

Se você é dos que não se impressionam pelo departamento técnico ou dos que valorizam a originalidade acima de tudo, o GTA V vai te decepcionar: é mais do mesmo, uma miscelânia de referências pop misturadas com sátira social e perseguições. Nisso o GTA é imbatível, um jogo excepcional. Mas dificilmente se pode chamar de revolucionário.

Conclusão: são razões para se pensar

Grand Theft Auto V é um jogo excepcional. Cedo ou tarde o comprarei e o jogarei até o final. Vou dirigir quilômetros por paisagens realistas, vou disparar milhões de balas e escutarei a trilha sonora tantas vezes que vai soar como barulho. Vou ficar maravilhado com o pôr do sol ou o quão realistas as ondas são. Vou sorrir quando entender uma sátira desajeitada e refletir quando surgir algum dilema moral.

Mas, as razões para não jogá-lo têm sua força. Elas me fazem pensar que GTA V não apenas não é um jogo para todos, mas também que poderia ter sido um jogo melhor.

E o que você acha desses argumentos?

[Artigo original em espanhol]

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